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Olá! Na aula anterior, você distinguiu referente — aquilo que se identifica em determinado uso — de sentido — o modo como uma expressão o apresenta. Agora, a pergunta muda ligeiramente: além de identificar de que se fala, o que a escolha das palavras faz o leitor entender ou sentir?
Nesta aula, você vai diferenciar denotação e conotação observando seus efeitos em enunciados concretos. Isso importa tanto para interpretar itens do Cebraspe quanto para revisar uma fala parlamentar: uma substituição pode manter o assunto geral e, ainda assim, apagar uma crítica, introduzir uma avaliação ou atribuir ao orador uma afirmação que ele não fez. Reserve cerca de 40 minutos para a leitura, o vídeo e a análise dos exemplos.
Visão geral: o sentido se decide no uso
Compare duas ocorrências de buraco:

No primeiro enunciado, buraco é empregado denotativamente: a leitura solicitada é a de uma abertura na rua. No segundo, é empregado conotativamente: ninguém precisa procurar uma cavidade no peito para compreender a ideia de perda.
Em uma distinção inicial, denotação é o emprego de uma palavra em sua acepção literal ou convencionalmente direta naquele contexto; conotação é o emprego que mobiliza uma extensão de sentido, uma imagem ou associações expressivas e avaliativas. O contraste não separa uma linguagem “verdadeira” de outra “falsa”. A perda expressa por um buraco em meu peito pode ser real; figurada é a maneira de apresentá-la.
Há também um cuidado terminológico em relação à aula anterior. Na discussão de sentido e referência, denotação pode aparecer, em certas tradições teóricas, ligada àquilo que uma expressão designa. Aqui, o contraste denotação/conotação trata do modo de emprego e dos efeitos de sentido das palavras no texto. Não iguale automaticamente essa oposição à distinção entre referente e sentido estudada antes.
Assista aos trechos selecionados de Denotação e Conotação — Aula de Português para Concurso, do Prof. Álvaro Ferreira. Observe sobretudo como ele decide pelo sentido figurado dentro de um enunciado, em vez de classificar uma palavra isolada.
DENOTAÇÃO e CONOTAÇÃO - Aula de Português para concurso
O vídeo, do Prof. Álvaro Ferreira, apresenta a distinção básica e a aplica a questões de concurso. Ele é útil para treinar a identificação de expressões figuradas em textos não literários.
Veja os conceitos de sentido próprio e figurado. Continue em uma questão comentada, prestando atenção a expressões como “fatia de vendas” e “mercado encolhia”: qual leitura o contexto econômico permite? Em “loteria genética”, observe o que a imagem da loteria acrescenta. Por fim, em a busca pelo literal, acompanhe a tarefa inversa: descartar as alternativas que contêm emprego figurado.
A fórmula “denotação é sentido de dicionário; conotação é sentido fora do dicionário” ajuda a começar, mas não basta para resolver uma questão difícil. Dicionários também registram acepções figuradas. É o texto que mostra qual acepção está sendo ativada e com que efeito.
Da imagem concreta ao efeito produzido
Volte à palavra buraco. Em “Há um buraco na via de acesso”, a abertura física é o dado relevante. Em “A análise encontrou um buraco na justificativa do projeto”, não há uma perfuração no papel: buraco sugere uma lacuna no raciocínio. Em “A proposta abriu um buraco no orçamento”, a palavra apresenta um desequilíbrio financeiro como falta ou vazio.
As duas últimas frases não produzem exatamente o mesmo efeito. Na primeira, o foco é a insuficiência de uma justificativa; na segunda, é o impacto financeiro de uma proposta. Ambas aproveitam a ideia de algo que falta, mas o restante de cada enunciado dirige a interpretação. Por isso, identificar “uma metáfora” sem explicar o que ela significa ali é uma resposta incompleta.
Leia agora um breve trecho de Formação Continuada em Língua Portuguesa, do CECIERJ. O material mostra como expressões cotidianas partem de imagens reconhecíveis e adquirem sentidos compartilhados no uso social.
FORMAÇÃO CONTINUADA EM LÍNGUA PORTUGUESA
O material do CECIERJ usa “pendurar as chuteiras” e “pisar em ovos” para mostrar como uma leitura literal pode dar lugar a outra interpretação. Leia-o para relacionar a imagem evocada ao efeito de sentido efetivamente produzido.
Na “Sequência Didática 2: O texto literário”, vá ao “Passo 1: Identificar o sentido denotativo e conotativo”, nas páginas 10–11. Comece no parágrafo que explica o que as imagens permitem perceber; leia a explicação até o Quadro 5, que termina com o sentido de “pisando em ovos”. Depois, no “Passo 2: Apresentar um esquema referente à distinção entre denotação e conotação”, nas páginas 11–12, leia o Quadro 6 inteiro, incluindo o contraste central. Pare antes de “Como avaliar a habilidade”. Observe que o quadro descreve tendências, não regras sem exceções para cada gênero textual.
Em pisar em ovos, a cena física de ovos quebráveis ajuda a construir a ideia de agir com extrema cautela. A expressão é figurada, mas seu significado não é uma invenção privada de cada leitor: trata-se de um uso socialmente reconhecível. Conotação não equivale, portanto, a interpretação livre ou arbitrária. O contexto e as convenções da língua limitam as leituras defensáveis.
O que a conotação acrescenta — e o que uma reescrita pode retirar
Considere uma fala sobre a tramitação de uma proposta: “O projeto morreu na comissão.” A escolha de morreu apresenta o projeto como algo cujo percurso foi interrompido de maneira marcante. Compare:
- “O projeto não avançou na comissão.” Conserva a ideia geral de ausência de progresso, mas reduz a expressividade.
- “O projeto foi rejeitado pela comissão.” Acrescenta um resultado procedimental específico que a frase original, sozinha, não comprova.
Esse contraste é decisivo para Registro e Redação. Uma expressão conotativa pode ser menos precisa quanto ao fato institucional e, ao mesmo tempo, mais reveladora da posição ou do tom do orador. Ao reescrevê-la, não basta perguntar se a nova frase “fala do mesmo projeto”. É preciso verificar se ela mantém o alcance da afirmação e se altera sua força expressiva.
O efeito pode ser avaliativo mesmo quando a expressão parece rotineira. “A medida lança luz sobre o problema” não apenas menciona a medida: sugere que ela esclarece algo antes pouco compreendido. “A medida encobre o problema” orienta a leitura no sentido oposto. Em ambos os casos, seria inadequado reduzir a frase a “a medida trata do problema”, pois essa versão apaga a avaliação.
Uma forma útil de analisar esses casos é perguntar, nesta ordem:
- Qual é a leitura literal da expressão?
- O contexto exige ou favorece outra leitura?
- Que ideia essa outra leitura comunica?
- Que tom ou avaliação ela acrescenta à afirmação?
A última pergunta distingue a simples identificação de uma palavra figurada da análise de seu efeito de sentido, exigida nesta aula.
Pontos de pegadinha do Cebraspe
O quadro reúne distinções que costumam ser comprimidas indevidamente em afirmações absolutas:
| Afirmação apressada | Ajuste necessário |
|---|---|
| “Se o fato descrito é real, a linguagem é denotativa.” | Um fato real pode ser expresso figuradamente: a discussão esquentou pode descrever um debate efetivamente tenso. |
| “Se a acepção aparece no dicionário, o emprego é denotativo.” | Dicionários registram acepções figuradas; examine o emprego no contexto. |
| “Texto informativo ou institucional não contém conotação.” | Esses textos tendem a buscar precisão, mas podem conter imagens e escolhas avaliativas. |
| “Toda palavra de origem metafórica produz hoje forte efeito expressivo.” | Um uso técnico ou consagrado pode estar tão estabilizado que sua imagem de origem pouco se destaca na leitura atual. |
| “Retirar uma expressão conotativa sempre preserva o sentido.” | A troca pode alterar intensidade, tom, avaliação ou grau de precisão factual. |
A terceira e a quarta linhas exigem atenção conjunta. “Teto de gastos”, por exemplo, não designa um teto de construção; a imagem espacial ajuda a compreender a ideia de limite. Em um texto técnico, porém, a expressão pode funcionar como denominação convencional, sem o impacto expressivo de uma metáfora nova. A origem figurada de um termo e o efeito que ele produz naquele texto não são necessariamente a mesma coisa.
Também evite decidir apenas pelo gênero. Um texto normativo busca clareza e precisão, enquanto um pronunciamento político pode explorar imagens persuasivas; ainda assim, não se conclui automaticamente que toda palavra de um texto normativo seja denotativa ou que todo trecho de um discurso seja conotativo. A unidade de análise é o emprego da expressão no segmento examinado.
Aplicação ao registro parlamentar
Imagine que o orador afirme: “Essa emenda põe um freio no desperdício.” A leitura literal de freio — dispositivo que reduz ou interrompe um movimento — não descreve o objeto da frase. No contexto, a expressão atribui à emenda uma capacidade de conter o desperdício. Mais do que informar uma possível finalidade, ela apresenta a emenda favoravelmente, como instrumento de controle.
Se um registro substituísse a frase por “Essa emenda elimina o desperdício”, cometeria dois problemas: apagaria a imagem escolhida pelo orador e fortaleceria indevidamente a afirmação. Pôr um freio não garante eliminação completa. Já “Essa emenda busca conter o desperdício” explicita uma leitura plausível, mas reduz parte da força da formulação original. A escolha entre preservar a fala e parafraseá-la depende da finalidade do texto produzido; em ambos os casos, o efeito original precisa ser reconhecido antes da edição.
Esse é o núcleo da cobrança interpretativa: denotação e conotação não são etiquetas para palavras consideradas isoladamente. São maneiras de examinar como uma expressão funciona em um enunciado e o que se ganha — ou se perde — ao formulá-lo de outro modo.
Fechamento
Denotação corresponde, neste tópico, ao emprego literal ou diretamente convencional de uma expressão no contexto; conotação envolve extensões de sentido, imagens ou associações que podem acrescentar expressividade e avaliação. Para diferenciá-las com segurança, não se apoie apenas no dicionário ou no gênero do texto: identifique a leitura favorecida pelo contexto e explique seu efeito sobre a informação, o tom e o posicionamento.
Na próxima aula, passaremos das escolhas expressivas às categorias semânticas — como tempo, modo, aspecto e papéis semânticos — para analisar com mais precisão o que os enunciados atribuem a participantes, ações e acontecimentos.