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Olá! Na aula anterior, você estudou o signo linguístico como associação entre significante e significado. Vimos também que o significado é um conceito, não uma coisa particular do mundo. Essa distinção deixa uma pergunta em aberto: se o signo não é simplesmente a união de uma palavra com um objeto, como identificamos de quem ou de que trata um enunciado?
Hoje vamos distinguir referente, referência, representação e sentido. A questão é decisiva para interpretar pronunciamentos e revisar registros parlamentares: reconhecer todas as palavras de uma fala não basta, se ainda não sabemos a quem se refere um pronome ou que informação se perde ao trocar uma expressão por outra. Reserve cerca de 35 a 40 minutos para a aula e os materiais indicados.
Visão geral: quatro perguntas diferentes
Imagine que, durante uma sessão, alguém diga: “A autora do requerimento pediu a palavra.” Para interpretar o enunciado, podemos fazer quatro perguntas:
- Referente: qual pessoa, naquela situação, é identificada como autora do requerimento?
- Referência: como a expressão a autora do requerimento, usada ali, permite apontar para essa pessoa?
- Sentido: por qual modo a expressão apresenta a pessoa? Neste caso, por sua relação com o requerimento.
- Representação: que imagem ou associação particular alguém forma mentalmente dessa pessoa? Em outro uso da palavra, representação também pode designar uma descrição, imagem ou registro que a retrata; é preciso observar o quadro teórico e o contexto.
A distinção central é esta: a pessoa identificada não é a expressão usada para identificá-la; tampouco é o modo como a expressão a apresenta. A fala pode selecionar uma pessoa por sua função, por um ato praticado ou por um nome. Esses caminhos não são necessariamente intercambiáveis em toda interpretação.
A imagem abaixo ajuda a visualizar por que uma forma linguística não deve ser confundida com aquilo de que se fala.

Há um cuidado ao ler o diagrama: ele reúne conceito e sentido no vértice superior. Isso é útil como primeira aproximação, mas não torna sinônimos todos os termos de teorias diferentes. Na aula anterior, significado designava uma face do signo em Saussure. Agora, ao estudar sentido e referência, examinaremos também como uma expressão apresenta seu referente em um enunciado.
Assista aos trechos de Semântica Formal, do canal Nead Unicentro. O exemplo das duas descrições de um mesmo astro mostra por que identificar apenas o objeto não esgota o que uma expressão comunica; a analogia do telescópio introduz a distinção entre sentido compartilhável e representação individual.
Em "Semântica Formal", do canal Nead Unicentro, acompanhe a distinção entre sentido, referência e representação atribuída a Frege. Os exemplos preparam a aplicação desses conceitos a enunciados parlamentares.
Assista a duas descrições: a comparação entre "estrela da manhã" e "estrela da tarde" mostra como uma identidade pode trazer informação. Continue em sentido e imagem, concentrando-se na analogia do telescópio: o objeto observado, o modo compartilhável de apresentá-lo e a imagem mental de cada observador ocupam lugares diferentes.
Referente e sentido: a mesma pessoa, duas maneiras de apresentá-la
Suponha que se confirme um fato sobre uma sessão: a parlamentar que a presidiu foi também a autora de um requerimento. Nesse contexto, a parlamentar que presidiu a sessão e a autora do requerimento podem ter o mesmo referente: uma única pessoa. Contudo, as expressões têm sentidos diferentes. A primeira a apresenta por sua atuação na condução da sessão; a segunda, pela autoria do requerimento.
Por isso, a afirmação “A autora do requerimento presidiu a sessão” pode informar algo que o ouvinte ainda não sabia. Já “A parlamentar que presidiu a sessão presidiu a sessão”, nas condições consideradas, apenas repete uma identificação. Saber que duas expressões apontam para a mesma pessoa não significa que elas contribuam da mesma maneira para o conteúdo informativo.
Leia agora a seção “4. As noções de sentido e referência” do material Semântica formal, disponibilizado pela USP. O texto desenvolve essa diferença e mostra uma consequência importante para a interpretação de relatos sobre aquilo que alguém sabe ou acredita.
O material "Semântica formal", disponibilizado pela USP, explica por que a referência de uma expressão não basta para descrever seu significado. Leia-o para consolidar a distinção entre o objeto apontado e o modo de apresentá-lo.
Na seção "4. As noções de sentido e referência", comece no parágrafo que apresenta a linguagem como forma de falar sobre entidades, estados, propriedades e eventos. Leia a explicação até o contraste entre contextos referenciais e contextos ligados a verbos como "saber" e "acreditar". Observe primeiro por que uma frase de identidade pode ser informativa; depois, por que substituir uma expressão por outra de mesma referência pode alterar a descrição do que alguém sabe.
A última observação do texto merece atenção especial no trabalho de Registro e Redação. Suponha que a parlamentar que presidiu a sessão seja a autora do requerimento, mas que uma testemunha não saiba disso. As frases “A testemunha sabia que a autora do requerimento estava presente” e “A testemunha sabia que a parlamentar que presidiu a sessão estava presente” não podem ser tratadas automaticamente como relatos equivalentes do conhecimento da testemunha. Ela pode reconhecer a pessoa sob uma descrição e desconhecer a outra.
Pegadinha possível: “Expressões com o mesmo referente preservam necessariamente o sentido de qualquer enunciado quando substituídas uma pela outra.” A palavra necessariamente torna a afirmação indevida. A substituição pode preservar a pessoa apontada e, ainda assim, modificar a informação transmitida ou o que se atribui ao conhecimento de alguém.
Referência: identificar exige observar o uso
Até aqui, falamos da referência de uma expressão também no sentido, comum na exposição de Frege, de aquilo a que ela se refere. Para analisar um pronunciamento concreto, convém distinguir esse uso do termo do ato de referir: o emprego de uma expressão, em uma situação, para dirigir a atenção do interlocutor a alguém ou a algo.
Considere “Ela pediu a palavra”. A expressão ela tem possibilidades de emprego reconhecíveis para quem conhece português, mas a frase isolada não determina qual pessoa pediu a palavra. É preciso recuperar a situação ou o trecho anterior. Se antes se disse “A relatora conversou com a presidenta”, a identificação ainda pode exigir mais contexto: duas pessoas foram mencionadas. Não é correto preencher a lacuna com uma escolha arbitrária e apresentá-la como se estivesse expressa no registro.
O referente, portanto, é aquilo que se identifica no uso considerado; a referência, entendida como processo, é o apontamento realizado por meio da linguagem nessa situação. O referente não precisa ser um objeto físico que possamos segurar. Podemos falar de uma pessoa, de uma sessão, de um acontecimento ou de uma entidade abstrata. E um enunciado pode ter sentido sem identificar uma pessoa particular: em “Nenhum deputado se manifestou”, nenhum deputado não é o nome de um parlamentar oculto.
Essa distinção também impede um erro inverso: presumir a existência de um referente particular só porque conseguimos compreender a expressão. É possível entender “o requerimento que será apresentado amanhã” sem concluir, apenas dessa frase, que o requerimento já foi apresentado ou que seus detalhes estejam identificados.
No registro parlamentar, pergunte sempre qual informação autoriza a identificação. Ela pode estar no enunciado, em uma passagem anterior ou na situação da fala; pode também continuar indeterminada. Essa disciplina evita que uma revisão transforme uma hipótese plausível em fato atribuído ao orador.
Representação não é referente — nem substitui o sentido
Na distinção apresentada no vídeo a partir de Frege, representação é a imagem ou associação mental particular de uma pessoa. Duas pessoas podem compreender a expressão a autora do requerimento e identificar a mesma parlamentar, embora imaginem cenas diferentes ao ouvi-la: uma recorda uma intervenção oral; outra, um documento. Essas imagens individuais não são o referente e não constituem, por si, o sentido compartilhável da expressão.
Há uma diferença terminológica importante para a prova. Em linguagem corrente, podemos chamar uma fotografia, uma descrição ou uma transcrição de representação de algo. Uma transcrição, por exemplo, representa linguisticamente uma fala; ela não é a própria ocorrência da fala. Já na distinção fregeana estudada aqui, representação designa sobretudo o conteúdo mental individual. Não transfira uma acepção para a outra sem examinar o contexto do item.
Também não confunda essa representação individual com o significado estudado na aula anterior. Na análise saussuriana, significado é a face conceitual do signo, não a lembrança privada que cada falante associa a uma pessoa ou evento. Em síntese, conceito ligado ao signo, modo de apresentar um referente e imagem mental particular respondem a perguntas distintas, ainda que todos participem de discussões sobre significação.
Pegadinhas do Cebraspe e aplicação no registro parlamentar
Use o quadro como esquema de decisão ao interpretar um enunciado:
| Termo | Pergunta de controle | Confusão a evitar |
|---|---|---|
| Referente | Quem ou o que é identificado neste uso? | Confundi-lo com a palavra ou supor que sempre seja um objeto físico. |
| Referência | Como o enunciado aponta para quem ou para aquilo de que trata? | Supor que a forma isolada sempre determine a identificação. |
| Sentido | Sob que modo a expressão apresenta o referente? | Concluir que duas expressões de mesma referência são sempre equivalentes. |
| Representação | Trata-se de imagem mental individual ou de uma representação em outro sentido, como um registro? | Chamar de “sentido compartilhado” uma associação puramente pessoal. |
Ao revisar uma fala, a sequência de análise é simples, mas rigorosa: identifique a expressão usada, verifique que contexto sustenta seu referente e observe que informação seu modo de apresentação acrescenta. Só então avalie uma eventual substituição. Trocar a autora do requerimento pelo nome de uma parlamentar pode facilitar a identificação do leitor, mas também pode apagar o vínculo com a autoria que o orador escolheu destacar. Se a identidade entre as duas expressões não estiver confirmada, a troca ainda introduzirá informação não comprovada.
O mesmo cuidado vale para pronomes. Diante de ela, uma transcrição fiel não deve converter uma inferência incerta em identificação categórica. Preservar o que foi dito e distinguir o que se sabe do que apenas se supõe é parte da precisão exigida de um registro.
Fechamento
Referente é aquilo que uma expressão identifica em determinado uso; referência pode nomear tanto essa relação quanto, em uma análise do enunciado concreto, o processo de apontar por meio da linguagem. Sentido é o modo pelo qual o referente é apresentado, razão pela qual duas expressões podem apontar para a mesma pessoa sem transmitir a mesma informação. Representação, na distinção fregeana, é a imagem mental individual — não a pessoa identificada nem o sentido compartilhável da expressão.
Na próxima aula, essa separação ajudará a examinar denotação e conotação: além de reconhecer de que um texto fala, veremos que efeitos de sentido suas escolhas de palavras podem produzir.