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Relações entre Signo, Significante e Significado

Olá! Na aula anterior, distinguimos a língua, sistema compartilhado, da fala, seu uso concreto em uma situação. Agora vamos olhar para uma unidade desse sistema: o signo linguístico. Entender como suas duas faces se associam ajuda a explicar por que uma palavra pode ser reconhecida em uma transcrição, por que sua forma não é escolhida livremente por cada orador e por que a ordem dos elementos importa.

Nesta aula, o foco é relacionar signo, significante e significado aos princípios de arbitrariedade, motivação e linearidade. A leitura e o vídeo, acompanhados dos exemplos parlamentares, devem ocupar cerca de 35 a 40 minutos.


Visão geral: o que constitui um signo?

Considere a palavra sessão em uma intervenção parlamentar. Você pode ouvi-la, vê-la escrita em uma transcrição e compreender o conceito que ela expressa naquele uso. Para analisar o signo segundo Ferdinand de Saussure, é preciso separar duas faces que funcionam juntas:

  • Significante: a imagem acústica, isto é, a representação mental da forma sonora. Não é simplesmente a onda sonora produzida pela voz nem a sequência de letras no papel.
  • Significado: o conceito associado a essa forma. Não é uma sessão específica ocorrida em determinada data.

O signo linguístico é a associação dessas duas faces. A distinção é analítica: ao identificar suas partes, não estamos dizendo que existam, na língua, como duas unidades independentes que depois se encaixam. Tampouco estamos dizendo que o signo una diretamente uma palavra a um objeto do mundo. Essa última confusão será importante quando estudarmos referente e referência na próxima aula.

Assista aos trechos indicados de O Signo Linguístico em Ferdinand de Saussure, do canal Professor Weslley Barbosa. Eles apresentam a constituição mental do signo e os dois princípios que desenvolveremos a seguir.

Signo Linguístico | Ferdinand de Saussure | Projeto "Introdução à Linguística"

Assista a O Signo Linguístico em Ferdinand de Saussure, do canal Professor Weslley Barbosa, para fixar a diferença entre o signo e suas duas faces antes de examinar os exemplos da aula.

Em duas faces, acompanhe por que conceito e imagem acústica não se confundem com objeto, som físico ou grafia. Em arbitrariedade, observe que a associação depende de convenção, não de uma semelhança natural. Por fim, veja linearidade: retenha a ideia de sucessão temporal do significante acústico. Não conclua daí que uma fala esteja livre de ambiguidades.

O esquema abaixo usa os termos “Conceito” e “Imagem acústica”. Leia-os, respectivamente, como significado e significante. O contorno comum representa o signo inteiro; não representa um objeto físico situado fora dele.

Esquema do signo linguístico: “Conceito” (significado) e “Imagem acústica” (significante) aparecem como as duas faces associadas de um mesmo signo.

Há uma precisão útil para questões de prova. A escrita sessão permite representar a palavra e consultá-la no registro parlamentar, mas grafia e significante não são sinônimos estritos no modelo clássico, centrado na imagem acústica. Da mesma forma, uma fotografia de uma reunião não é o significado de sessão: o significado é o conceito linguístico, não uma imagem particular que cada pessoa visualiza.


Arbitrariedade: sem vínculo natural, mas com convenção

Por que determinada imagem acústica se associa ao conceito expresso por sessão? A resposta saussuriana não é “porque seus sons se parecem com uma sessão”. Não há uma necessidade natural que imponha essa associação. É nesse sentido que a relação entre significante e significado é chamada de arbitrária.

“Arbitrário”, porém, não significa aleatório a cada uso. Se uma pessoa empregasse uma forma inteiramente inventada para designar uma sessão, sem que os interlocutores conhecessem essa convenção, provavelmente não seria compreendida. A língua é social: suas associações são compartilhadas, aprendidas e relativamente estáveis para quem a utiliza. Assim, duas afirmações podem ser verdadeiras ao mesmo tempo:

  1. Nada nas propriedades sonoras de sessão exige naturalmente o conceito a ela associado.
  2. Quem usa o português não pode trocar esse significante por qualquer outro, por vontade individual, e esperar a mesma interpretação.

Também não se deve confundir arbitrariedade com ausência de significado. O signo significa justamente porque suas faces estão associadas no sistema da língua. Quando você lê “A sessão foi encerrada”, a forma linguística participa da construção de uma interpretação; o princípio da arbitrariedade explica a natureza da ligação entre forma e conceito, não apaga essa ligação.

Uma possível pegadinha do Cebraspe seria afirmar: “Por ser arbitrário, o signo linguístico admite que cada falante atribua livremente qualquer significado a qualquer significante.” A conclusão não decorre da premissa. A ligação não é natural, mas é convencional e social. Note ainda o objeto preciso da tese: trata-se da relação entre significante e significado, não de uma suposta liberdade irrestrita de toda a fala.


Motivação: quando a forma oferece pistas

Se a associação é arbitrária, por que algumas palavras parecem dar pistas de seu significado? Compare contagem e recontagem. Uma pessoa familiarizada com o português pode perceber, em recontagem, uma relação com contagem e com a ideia de contar novamente. A forma da palavra oferece uma pista interna à língua.

Isso é motivação relativa: parte da interpretação pode ser explicada pela composição da forma e pelas associações que seus componentes mantêm com outras formas. Não significa que cada som de contagem, considerado isoladamente, tenha uma relação natural com o ato de contar. A motivação de recontagem é, portanto, parcial e dependente do sistema linguístico. Em um registro parlamentar, essa distinção importa: reconhecer como a palavra foi formada ajuda a interpretá-la, mas não autoriza inventar um sentido técnico que o contexto não sustente.

Leia agora a discussão de A língua para Ferdinand de Saussure sobre arbitrariedade e motivação. Ela retoma o signo estudado na aula anterior e mostra por que relativamente motivado não equivale a não convencional.

A língua para Ferdinand de Saussure

Retome A língua para Ferdinand de Saussure para aprofundar a relação entre arbitrariedade, motivação parcial e convenção, sem precisar reler a parte introdutória já estudada.

No PDF, vá à seção “Sintagma e paradigma”. Depois da apresentação dos eixos sintagmático e paradigmático, localize o parágrafo que começa “Quando Saussure trata do signo lingüístico”. Leia a discussão central, incluindo o exemplo de pereira e a explicação de sua motivação parcial. Continue pelos dois parágrafos seguintes, iniciados por “O que é importante ressaltar” e “Ser convencional20”, e pare antes de “Sincronia e diacronia”. Concentre-se na distinção entre uma forma que oferece pistas e uma forma que poderia ser prevista integralmente.

O exemplo de pereira esclarece um ponto decisivo: perceber pera e reconhecer um padrão em nomes como cerejeira ajuda a compreender a palavra. Ainda assim, os elementos e suas combinações pertencem a convenções de uma língua. Motivação não elimina necessariamente arbitrariedade nem convencionalidade.

As onomatopeias oferecem outro caso instrutivo. Uma forma como tic-tac procura imitar um som e, por isso, apresenta alguma motivação sonora. Mas uma imitação não reproduz o ruído de maneira perfeita ou universal; ela também se ajusta às possibilidades e aos hábitos de cada língua. Um item de prova que diga que toda onomatopeia constitui exceção completa ao caráter convencional da língua simplifica demais o fenômeno.


Linearidade: a forma sonora ocupa uma linha no tempo

Até aqui, examinamos como as duas faces do signo se relacionam. A linearidade responde a outra pergunta: como o significante acústico se apresenta? Na formulação clássica, seus elementos se desenrolam sucessivamente no tempo. Ao pronunciar uma expressão, não emitimos todos os seus segmentos como um único elemento indiferenciado; há uma cadeia cuja ordenação pode ser reconhecida.

Observe a diferença entre:

A comissão convocou o relator.
O relator convocou a comissão.

As duas frases contêm praticamente as mesmas palavras, mas sua disposição não é indiferente: a primeira atribui a convocação à comissão; a segunda, ao relator. Esse contraste envolve também relações gramaticais. Ele mostra, no plano do enunciado, por que acompanhar a sequência dos elementos é essencial para interpretar o que foi dito e para registrar fielmente uma intervenção.

É preciso formular o princípio com precisão. A tese clássica é a linearidade do significante acústico, não a afirmação de que todo recurso comunicativo só possa apresentar informações em uma dimensão. Um gráfico exibido durante uma audiência, por exemplo, pode reunir elementos visuais simultâneos. A linearidade tampouco impede pausas, sobreposição de vozes, retomadas ou ambiguidades na comunicação real.

Para o trabalho de Registro e Redação, há uma consequência prática: uma transcrição não pode tratar a ordem das palavras como detalhe de apresentação. Alterar silenciosamente quem fez o quê, mesmo preservando quase todo o vocabulário, pode alterar a informação registrada. Questões editoriais mais amplas sobre revisão e retextualização virão depois; por ora, o princípio é não confundir a presença das mesmas palavras com a preservação do mesmo enunciado.


Pegadinhas do Cebraspe e aplicação no registro parlamentar

Os três pontos da aula incidem sobre aspectos diferentes do signo. A tabela serve como esquema de consulta rápida:

Conceito Pergunta decisiva Afirmação a evitar
Signo linguístico Qual unidade resulta da associação entre forma e conceito? “É o som físico unido ao objeto real.”
Significante Qual é a representação da forma sonora? “É simplesmente a grafia da palavra.”
Significado Qual é o conceito associado? “É uma coisa particular do mundo.”
Arbitrariedade A ligação entre as faces é imposta pela natureza? “Cada falante pode mudá-la livremente.”
Motivação relativa A composição da forma oferece pistas de interpretação? “Se há pistas, desaparece toda convenção.”
Linearidade Como se apresentam os elementos do significante acústico? “A ordem não interfere na interpretação.”

Considere, em conjunto, uma fala sobre recontagem de votos. O registro escrito permite identificar as formas empregadas; o sistema do português permite associá-las a conceitos compartilhados. A palavra recontagem oferece uma pista de formação, mas sua interpretação concreta ainda exige atenção ao enunciado. Se alguém trocar, na transcrição, a posição dos participantes de uma ação, poderá modificar o conteúdo atribuído ao orador. São problemas distintos: a composição de uma palavra, a convenção que liga forma e conceito e a ordenação do que foi efetivamente dito.

O cuidado comum aos três é não passar de um plano para outro sem justificativa. Saber o significado de sessão não identifica, por si só, qual sessão está em discussão; esse é um problema ligado ao contexto. Reconhecer uma forma relativamente motivada não permite ignorar o uso que a comunidade faz dela. E reconhecer a linearidade não autoriza concluir que a comunicação oral seja sempre inequívoca.


Fechamento

O signo linguístico reúne significante, a imagem acústica, e significado, o conceito. A associação é arbitrária porque não decorre de uma necessidade natural, embora seja convencional e não fique à livre escolha de cada falante. Algumas formas apresentam motivação relativa, oferecendo pistas por sua composição, sem perder seu caráter convencional. Já a linearidade diz respeito à sucessão temporal dos elementos do significante acústico e ajuda a entender a importância da ordem no registro de um enunciado.

Na próxima aula, daremos um passo além do signo considerado em si: distinguiremos referente, referência, representação e sentido para interpretar com mais precisão aquilo de que um enunciado parlamentar trata.

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