Recommended resources
The freely available resources this lesson will direct you to.
Olá! Este curso começa pelos fundamentos da Linguística e avançará até a redação parlamentar, o processo legislativo e as tecnologias de transcrição. Neste primeiro módulo, a distinção entre linguagem, língua e fala servirá de base para analisar tanto o que é dito em uma sessão quanto a forma como esse dizer é registrado.
Ao final desta aula, você deverá conseguir classificar esses três conceitos em situações concretas de comunicação parlamentar — sem confundir, por exemplo, língua com norma-padrão ou fala com o simples som da voz. Reserve cerca de 40 minutos para o vídeo, as leituras e a análise dos exemplos.
Visão geral: três perguntas diferentes
Imagine uma audiência pública. Um participante formula uma pergunta em português, aponta para um gráfico projetado e, enquanto aguarda resposta, o registro da reunião assinala uma pausa. Tudo integra a situação comunicativa, mas não da mesma maneira. Para separar os fenômenos, faça três perguntas:
- Que recursos permitem produzir ou interpretar sentidos? Essa é a pergunta sobre linguagem.
- Que sistema linguístico compartilhado permite compreender as palavras e construções? Essa é a pergunta sobre língua.
- Que escolhas foram efetivamente feitas naquela intervenção? Essa é a pergunta sobre fala, na dicotomia língua/fala.
Em sentido amplo, a linguagem abrange recursos verbais e não verbais usados para significar: palavras, gestos, imagens e sinais convencionados. A língua portuguesa é um sistema particular de signos e convenções dentro desse universo. Já a fala é a realização concreta de uma língua por alguém, numa ocasião determinada.
LINGUAGEM, LÍNGUA E FALA (Bônus: QUIZ)
Assista a “Linguagem, Língua e Fala”, do canal Conhecendo a Língua, para visualizar a diferença entre recursos verbais, não verbais e mistos.
Veja recursos comunicativos, em que aparecem palavras, gestos, figuras e outros sinais. Depois, vá a três modalidades e observe o critério: há emprego de uma língua, de sinais não verbais ou dos dois? Por ora, concentre-se nesse alcance amplo de “linguagem”; precisaremos de uma definição mais precisa de “fala” na próxima leitura.
A distinção verbal/não verbal responde a uma pergunta diferente da distinção língua/fala. Um cartaz que reúne uma frase e um gráfico combina linguagem verbal e não verbal. A frase está em determinada língua; a escolha daquela frase, naquele cartaz, constitui um uso concreto dessa língua. Do mesmo modo, um gesto de quem preside uma reunião pode ter significado institucional sem ser, por isso, uma palavra do português.
Nem todo som, movimento ou cor constitui automaticamente uma mensagem. O sentido depende de uma situação interpretável e, muitas vezes, de convenções compartilhadas. Uma pausa marcada em um registro, por exemplo, informa algo sobre a interação; isolada de seu contexto, ela não autoriza concluir por que alguém se calou.
Língua coletiva, fala situada
A distinção fica mais rigorosa na formulação associada a Ferdinand de Saussure. Linguagem designa a capacidade humana ampla, com dimensões sociais e individuais. Língua é um produto social dessa capacidade: um sistema de convenções compartilhadas por uma comunidade. Fala é o uso individual desse sistema, com escolhas feitas em um acontecimento comunicativo.
A língua para Ferdinand de Saussure
Leia “A língua para Ferdinand de Saussure”, material de introdução aos estudos linguísticos, para firmar a distinção teórica que usaremos nos registros parlamentares.
Na parte “Língua e linguagem”, localize o parágrafo iniciado por “Para Saussure, linguagem é uma faculdade humana”. Leia os conceitos iniciais até a retomada que caracteriza a língua como fenômeno social e convencional. Depois, na parte “Língua e fala”, comece quando o texto contrapõe a fala à língua coletiva e leia a distinção até a explicação da língua como sistema social. Preste especial atenção à ressalva de que, nesse tratamento, “fala” não se reduz ao meio sonoro.
Social não quer dizer que todos os integrantes da comunidade se expressem do mesmo modo. Significa que nenhum deles inventa sozinho, a cada frase, as condições básicas para ser compreendido. Há formas e relações compartilhadas que tornam possível reconhecer uma pergunta, interpretar uma negação ou empregar termos como “requerimento” e “sessão”.
Individual também não quer dizer que a fala seja incompreensível para os demais. Ao intervir, cada pessoa seleciona palavras, ordena argumentos, interrompe ou retoma uma frase e ajusta o que diz a seus interlocutores. Essas escolhas só funcionam porque se apoiam, em grande parte, no sistema coletivo. Duas pessoas podem recorrer à mesma língua portuguesa e defender posições opostas com formulações muito diferentes.
Há aqui uma precisão importante para prova. No uso cotidiano, fala costuma significar emissão oral. Na dicotomia estudada no texto-base, porém, o ponto decisivo é a realização concreta da língua, não o som tomado isoladamente. Uma intervenção oral é o caso mais evidente; um enunciado escrito também é uma ocorrência particular do sistema. A escrita possui convenções próprias e não deve ser tratada como mera cópia dos sons da fala. Quando um item empregar fala sem explicitar seu sentido, verifique se discute modalidade oral ou uso individual da língua antes de julgá-lo.
Outra separação indispensável: língua portuguesa não é sinônimo de norma-padrão. A norma-padrão orienta determinados usos formais; a língua comporta diferentes registros e variedades. Assim, uma construção espontânea de um orador pode afastar-se de uma convenção exigida para um documento formal sem deixar de ser uma realização do português. Para o trabalho de registro e redação, isso impede confundir descrição do que ocorreu com decisão editorial sobre como apresentar o texto.
Uma audiência pública observada sob três lentes
Passe agora da definição ao documento. O registro abaixo é de uma audiência pública e se apresenta como texto sem revisão. Ele permite examinar turnos de participantes, perguntas e escolhas de formulação. Não o trataremos como áudio bruto nem decidiremos o mérito da controvérsia debatida: nosso objeto é a comunicação.
DEPARTAMENTO DE TAQUIGRAFIA, REVISÃO E REDAÇÃO ...
Consulte o registro publicado pelo departamento de taquigrafia, revisão e redação da Câmara dos Deputados para observar a língua em uso numa situação institucional.
Nas páginas numeradas 6 e 7 do registro, encontre a discussão que passa da possível perda de pontos à consequência para a classificação. Comece na pergunta “O jogador estava irregular?” e leia a troca de turnos até a frase “O que eu entendo é isso.”, antes da pergunta seguinte sobre o que teria acontecido. Observe quem fala, onde há uma pergunta e como cada participante delimita o próprio entendimento; não é necessário ler o restante das 58 páginas.
O que há nesse pequeno trecho?
Na lente da linguagem, não aparecem apenas palavras isoladas. A pergunta “O jogador estava irregular?” é um modo de conduzir a interação; os marcadores de identificação dos participantes e a disposição dos turnos ajudam o leitor a acompanhar quem toma a palavra. O registro escrito representa parte de um acontecimento comunicativo mais amplo. Ele não nos permite, por si só, recuperar com segurança todos os gestos, entonações ou motivos das pausas da audiência.
Na lente da língua, os participantes recorrem predominantemente ao português. As formas interrogativas, a ordenação das frases e expressões compreensíveis em comum permitem acompanhar o debate, apesar das diferenças de posição. Termos como “pontos” e “regulamento” adquirem relevância específica no assunto discutido; o vocabulário especializado não constitui, por si só, outra língua.
Na lente da fala, interessam as formulações efetivas: um participante pergunta, ressalva “Eu não sou jurista” e apresenta seu entendimento; outro distingue o ponto em discussão das consequências que atribui à decisão. Esses movimentos não são regras abstratas do português. São escolhas situadas de pessoas que participam daquela audiência. O fato de a intervenção aparecer em notas taquigráficas não transforma uma escolha individual em regra coletiva da língua.
Um detalhe metodológico importa para a especialidade de Registro e Redação: registro não é acontecimento. O documento atribui turnos e fixa palavras para consulta; não equivale automaticamente a uma reprodução integral de tudo o que ocorreu na sala. Ao analisar uma transcrição, separe o que ela efetivamente documenta do que você apenas supõe a respeito da intenção ou do tom de quem falou.
Pontos de pegadinha do Cebraspe
A banca pode produzir uma afirmação aparentemente plausível trocando o plano de análise. Se disser que dois oradores “falam línguas distintas” apenas porque um prefere vocabulário técnico e outro usa construções coloquiais, terá confundido variação de uso com sistemas linguísticos distintos. O grau de formalidade de uma intervenção não decide, sozinho, qual é a língua empregada.
Outra inversão possível é tratar “fala” como algo inteiramente independente da língua: afinal, cada orador escolhe as próprias palavras. A conclusão não procede. A fala é individual na realização, mas depende de convenções compartilhadas para que essas escolhas possam ser interpretadas. Também é impreciso afirmar, no enquadramento teórico adotado aqui, que uma frase deixa de exemplificar o uso concreto da língua ao ser escrita ou transcrita.
Por fim, cuidado com a abrangência de linguagem. Dizer que um gráfico e uma intervenção oral são recursos de linguagem não significa dizer que ambos são frases do português. O gráfico pode expressar informações por meios visuais; a intervenção verbal emprega uma língua. Em uma apresentação parlamentar, eles podem atuar em conjunto sem perder essa diferença.
| Termo | Pergunta de identificação | Exemplo na comunicação parlamentar | Confusão a evitar |
|---|---|---|---|
| Linguagem | Que recursos possibilitam produzir ou interpretar sentido? | Palavras de um pronunciamento, gráfico exibido e gesto significativo | Reduzi-la a palavras |
| Língua | Qual sistema linguístico compartilhado está em uso? | Português empregado na discussão | Equipará-la exclusivamente à norma-padrão |
| Fala | Como a língua foi concretamente usada nessa ocasião? | Pergunta, ressalva e escolha vocabular de uma intervenção | Reduzi-la a som ou torná-la independente da língua |
No trabalho parlamentar, essa classificação orienta decisões distintas. Para identificar o que ocorreu, você observa a intervenção concreta e os limites do registro disponível. Para compreender como foi possível formulá-la, considera a língua compartilhada. Para interpretar recursos além das palavras, considera a situação de linguagem mais ampla. Nenhum desses passos autoriza substituir a posição de um orador por uma formulação que ele não sustentou.
Fechamento
A distinção central é esta: linguagem é o plano mais amplo dos recursos e da capacidade de significar; língua é o sistema social compartilhado; fala é sua realização concreta e situada. Uma audiência reúne os três planos ao mesmo tempo, mas cada um responde a uma pergunta diferente. É essa diferença que permite ler registros parlamentares com precisão, sem transformar variação individual em “outra língua” nem tomar uma transcrição pelo acontecimento inteiro.
Na próxima aula, examinaremos signo, significante e significado: os elementos que ajudam a explicar como as unidades de uma língua produzem sentido.