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Olá! Na aula anterior, você distinguiu relações entre palavras observando forma, origem e sentido. Agora, o foco muda de escala: em vez de comparar palavras, você vai examinar como afirmações se combinam e como uma conclusão pode — ou não — decorrer delas.
O objetivo é representar argumentos simples por meio de proposições, conectivos e notação lógica. Para o concurso, isso exige atenção a diferenças pequenas na redação: se não equivale a somente se; ou nem sempre exclui uma das alternativas; e mudar a posição de um não pode alterar toda a afirmação. Reserve cerca de 40 minutos, incluindo os vídeos e a leitura indicados.
Da frase à proposição
Na lógica proposicional, uma proposição é uma afirmação à qual se pode atribuir um valor de verdade: verdadeiro ou falso. “O trecho foi revisado” pode funcionar como proposição mesmo que você ainda não saiba se a revisão ocorreu. Já “Revise o trecho” é uma ordem, e “O trecho foi revisado?” é uma pergunta; nenhuma das duas, tal como está, afirma algo verdadeiro ou falso.
Representamos proposições por letras. Considere, daqui em diante:
- : “O áudio foi localizado.”
- : “O trecho será revisado.”
- : “O registro será disponibilizado.”
As letras preservam o conteúdo integral de cada afirmação. Isso importa: se significa “O trecho será revisado”, não passe a usá-la, no meio da análise, para “O trecho já foi revisado”. A alteração do tempo verbal cria outra proposição.
Assista a Filosofia 10º ano — Lógica proposicional: Formalização em linguagem, do canal Help2Learn. O vídeo introduz as letras proposicionais e mostra visualmente por que o alcance de um conectivo precisa ficar claro.
Filosofia 10º ano - Lógica proposicional: Formalização em linguagem 💭
Assista para reconhecer proposições simples, conectivos e o papel dos parênteses na formalização.
Em proposições e conectivos, observe como afirmações representadas por letras formam expressões compostas. Em alcance e parênteses, concentre-se na diferença entre negar apenas uma parte da frase e negar a frase inteira. Os exemplos são cotidianos; a mesma distinção será aplicada abaixo a enunciados de registro e redação.
Formalizar não é descobrir, por si só, se o áudio foi localizado ou se houve revisão. É registrar com precisão o que foi afirmado e como as afirmações se relacionam. A verificação dos fatos e a análise da forma do argumento são tarefas distintas.
O que cada conectivo afirma
Um conectivo forma uma proposição composta a partir de outras proposições. A tabela-verdade especifica o valor da composta para cada combinação possível dos valores de suas partes.
Assista ao trecho de Como a Banca CEBRASPE Cobra Conectivos Lógicos e Tabela-Verdade em Concursos!, do canal Prep Concursos. Use-o como apoio para entender a condição decisiva de cada conectivo, em vez de decorar uma sequência solta de letras V e F.
Como a Banca CEBRASPE Cobra Conectivos Lógicos e Tabela-Verdade em Concursos!
Assista para consolidar as condições de verdade de “e”, “ou”, “ou exclusivo”, “se... então” e “se e somente se”.
Em valores dos conectivos, acompanhe especialmente três contrastes: “e” requer ambas as partes verdadeiras; o “ou” inclusivo admite ambas verdadeiras; e a condicional só é falsa quando o antecedente é verdadeiro e o consequente é falso.
A tabela reúne os conectivos principais. V significa verdadeiro; F, falso.
| V | V | F | V | V | F | V | V |
| V | F | F | F | V | V | F | F |
| F | V | V | F | V | V | V | F |
| F | F | V | F | F | F | V | V |
Leia cada coluna como uma afirmação específica:
Negação, , significa “não ” e troca o valor de verdade de . Conjunção, , significa “ e ”: só é verdadeira quando ambas são verdadeiras. Em lógica, uma frase com mas geralmente também afirma as duas partes; o contraste sugerido por mas é um efeito adicional da linguagem natural.
Disjunção inclusiva, , significa “ ou , possivelmente ambos”. É falsa somente quando ambas as partes são falsas. Disjunção exclusiva, , exige exatamente uma parte verdadeira. Portanto, “o registro será disponibilizado em um formato ou em outro” não deve ser considerado automaticamente exclusivo: para essa formalização, o enunciado ou o contexto precisa afastar a possibilidade de ambos.
A condicional, , corresponde a “se , então ”. Seu único caso falso é verdadeiro e falso: ocorreu a condição anunciada, mas não ocorreu o resultado afirmado. Quando é falso, a condicional é verdadeira na tabela, sem que isso prove . Tampouco a seta estabelece, por si mesma, uma relação causal: ela registra a condição de verdade da afirmação composta.
Por fim, a bicondicional, , corresponde a “ se, e somente se, ”. Ela exige as duas condicionais, e , e é verdadeira quando e têm o mesmo valor de verdade.
“Se”, “somente se” e o alcance do “não”
Uma boa formalização começa por identificar qual parte é a condição. Com representando “O áudio foi localizado” e representando “O trecho será revisado”, compare:
| Enunciado | Notação | O que ele compromete a afirmar |
|---|---|---|
| “Se o áudio foi localizado, o trecho será revisado.” | Localizar o áudio basta, na afirmação, para haver revisão. | |
| “O trecho será revisado se o áudio foi localizado.” | A ordem das orações mudou; a condição continua sendo . | |
| “O trecho será revisado somente se o áudio foi localizado.” | A revisão exige que o áudio tenha sido localizado. | |
| “O trecho será revisado se, e somente se, o áudio foi localizado.” | Cada ocorrência é apresentada como condição da outra. |
Na primeira linha, é suficiente para , e é necessário para . Isso não autoriza afirmar que seja necessário para : o trecho poderia, em princípio, ser revisado em outra circunstância. A palavra somente é uma pegadinha importante porque pode inverter a direção da condicional.
Os parênteses resolvem outra dificuldade: o alcance dos conectivos. Compare duas afirmações diferentes:
A primeira diz: “Se o áudio não foi localizado, o trecho será revisado.” O não incide apenas sobre . A segunda diz: “Não é verdade que, se o áudio foi localizado, o trecho será revisado.” Agora a negação incide sobre a condicional inteira. Na lógica proposicional, esta última expressão equivale a:
Ou seja, a negação da condicional afirma precisamente seu caso de falha: o áudio foi localizado e o trecho não será revisado. Observe que indica equivalência lógica: as expressões dos dois lados têm o mesmo valor de verdade em todas as combinações possíveis.
O mesmo cuidado vale para e e ou. Negar “ e ” não significa afirmar que ambas são falsas; basta que ao menos uma seja falsa. Negar “ ou ”, quando o ou é inclusivo, exige que ambas sejam falsas:
Essas são as leis de De Morgan. Elas ajudam a conferir se uma reescrita preserva o que o enunciado afirma ou nega.
Representar um argumento: premissas e conclusão
Uma proposição composta não é, por si só, um argumento. Um argumento apresenta uma ou mais premissas em apoio a uma conclusão. A formalização precisa, portanto, registrar tanto cada frase quanto o papel que ela desempenha.
Leia a seção 2, “Sintaxe da lógica proposicional”, e a seção 2.1, “Formalização de argumentos”, de Lógica Proposicional, de S. L. Pereira (IME-USP). A leitura mostra um procedimento completo: atribuir letras às afirmações, traduzir cada premissa e separar delas a conclusão.
[PDF] Lógica Proposicional - IME-USP
Leia para ver como passar de frases em linguagem natural a uma representação formal de um argumento inteiro.
Na seção 2, “Sintaxe da lógica proposicional” (p. 2), leia a apresentação dos símbolos e das fórmulas; no parágrafo final, acompanhe o exemplo dos parênteses, que termina comparando a negação de uma letra com a negação de uma conjunção. Depois, na seção 2.1, “Formalização de argumentos” (pp. 2–3), leia o argumento completo: comece no exemplo do time, acompanhe a atribuição das letras e pare ao fim da explicação da notação de consequência lógica, imediatamente antes de “Exercício 1”. Foque na separação entre as quatro premissas e a conclusão, não no tema esportivo.
Apliquemos o procedimento a um argumento hipotético, sem tomar suas premissas como descrição de uma regra institucional:
Se o áudio foi localizado, o trecho será revisado.
O áudio foi localizado.
Logo, o trecho será revisado.
Com o dicionário já definido, as duas premissas são e ; a conclusão é . Escrevemos:
O símbolo não é mais um conectivo entre frases. Ele indica que a conclusão é consequência lógica das premissas: não há combinação de valores em que ambas as premissas sejam verdadeiras e a conclusão, falsa. Essa forma de raciocínio é conhecida como modus ponens.
Agora substitua a segunda premissa por “O trecho será revisado”. Teríamos e , mas não poderíamos concluir :
Para enxergar o problema, considere falso e verdadeiro. Nessa combinação, a condicional é verdadeira e também; contudo, é falso. A revisão, portanto, não demonstra por si só que o áudio foi localizado. Trata-se da afirmação do consequente, uma inferência inválida.
Há, em contraste, uma segunda inferência válida:
Se a condicional é verdadeira e é falso, não pode ser verdadeiro, pois essa seria justamente a única combinação que tornaria a condicional falsa. Esse raciocínio é o modus tollens. Note a diferença em relação a concluir apenas porque se sabe : negar a condição inicial não determina o que aconteceu com o consequente.
Validade não é confirmação factual. Um argumento pode ter forma válida mesmo quando ainda não verificamos se suas premissas correspondem aos fatos. Na atividade de registro e redação, essa separação impede transformar uma relação afirmada pelo orador em um acontecimento comprovado pelo registro.
Pegadinhas de formalização no contexto da prova
Em itens de certo ou errado, uma única troca de conectivo ou de posição costuma bastar para alterar o sentido. Este esquema concentra as distinções decisivas:
| Troca feita no enunciado | Por que exige atenção |
|---|---|
| por | A primeira admite e verdadeiros ao mesmo tempo; a segunda, não. |
| por | A condicional não é, em geral, equivalente à sua inversão. |
| por | A bicondicional acrescenta a exigência de . |
| por | “Nenhum dos dois” é mais forte que “não ambos”. |
| por | A negação passa de uma parte da frase para a frase inteira. |
| “Logo, ” por “” | Conclusão de um argumento e condicional dentro de uma proposição não exercem a mesma função. |
Um método de leitura confiável é: identifique as afirmações básicas; mantenha um dicionário fixo para as letras; determine o alcance de cada não e de cada condição; use parênteses quando houver risco de ambiguidade; por fim, separe as premissas da conclusão. Para verificar se a conclusão decorre delas, procure uma combinação em que todas as premissas sejam verdadeiras e a conclusão seja falsa. Se ela existir, o argumento não é válido.
Fechamento
Você já pode representar afirmações por letras, combinar essas letras com negação, conjunção, disjunção, condicional e bicondicional, e escrever um argumento separando premissas de conclusão. O ponto mais importante para a prova é não formalizar pela aparência das palavras: determine o alcance de não, diferencie se de somente se e confira se o ou permite ambas as alternativas.
Com esta aula, termina o módulo de fundamentos linguísticos, semânticos e lógicos. No próximo, o foco passa à leitura de textos: distinguir o que está expresso, o que pode ser inferido e o que seria uma extrapolação. A disciplina usada aqui para não tirar uma conclusão além das premissas será igualmente útil nessa análise.